O futuro da esquerda brasileira após 2026: os desafios de Lula, dos partidos e de uma nova geração

A eleição de 2026 abre uma nova etapa para a esquerda brasileira. Por duas razões, principalmente.

A primeira já era esperada: trata-se do último mandato de Lula. Ele não pode se reeleger em 2030, o que obriga a esquerda a encontrar outro nome.

A segunda foi a grande novidade. Entre o primeiro e o segundo turno, milhões de jovens, de todos os cantos do Brasil, saíram às ruas em passeatas em defesa da reeleição de Lula.

Há quem diga que muitos ali só queriam evitar a vitória de Flávio Bolsonaro. Mas é inegável que a grande maioria se envolveu com as cores e bandeiras do PT. Muitos passaram a conhecer, de fato, o que Lula fez, o PT e a esquerda.

Prova disso é que, em outubro, o partido bateu recorde de filiações, com mais de 40 mil novos filiados. Mais da metade tinha menos de 35 anos. E isso porque não temos dados do PSOL, PCdoB e outros partidos menores de esquerda.

Essas duas razões levam ao debate principal: qual será a forma de Lula governar neste quarto mandato?

O que será o Lula 4?

O debate existe porque mal saiu o resultado da eleição, e jornalistas econômicos já começaram a falar da necessidade de sinalizar ao centro, ao mercado. Partidos abutres já começaram a falar sobre como Lula precisa ceder para ter o apoio deles em projetos de lei no Congresso.

E, claro, aqui não há ingenuidade. Lula tem minoria na Câmara e no Senado. Precisará de votos do MDB, PSD, Republicanos e tantos outros.

No entanto, o momento é outro. Se, até o primeiro turno, o que vimos foi um domínio da extrema-direita, o segundo turno mostrou uma resposta da população.

Não foi o plano de cortes, não foi o tesouraço de Flávio Bolsonaro que ganhou a eleição. Foi a defesa de investimentos públicos, a defesa do SUS, da educação pública.

Se, em 2022, de fato, foi uma frente ampla que derrotou o bolsonarismo, em 2026, os chamados partidos de centro abandonaram a esquerda, deixando-a sozinha na disputa eleitoral. A virada não aconteceu por negociação de apoios do MDB, PSD, pelo envolvimento de Kassab e outros camaleões da política.

Foram os jovens estudantes que saíram às ruas e foi uma mobilização absurda do povo nas redes que conduziu Lula a um quarto mandato.

E isso não pode ser descartado. Não dá para Lula passar os últimos quatro anos como presidente virando as costas para quem o reelegeu em troca de um aceno para quem o largou na eleição.

As derrotas impostas pelo Centrão durante o Lula 3

E vale destacar que não foi só na eleição. Durante todo o mandato, o Centrão, ao qual Lula buscou apoio e que agora faz exigências, foi o mesmo que lhe impôs pesadas derrotas, como na desoneração de grandes empresas, na taxação de investimentos e até na indicação de Messias ao STF.

Ou seja, há partidos que sequer conseguiram 5% nas eleições presidenciais, que tiveram queda no número de senadores e deputados e agora querem exigir que o PT mude seu projeto, sem sequer garantir apoio total aos projetos de lei.

E, de novo, aqui não há ingenuidade. Não dá para esperar que a população saia às ruas todas as vezes que houver um bom projeto para ser votado. Infelizmente, sabemos da campanha de fake news que bomba nas redes, como fizeram com o PIX, quando iriam rastrear a lavagem de dinheiro, mas políticos mentirosos colocaram medo na população, dizendo que isso era para taxar pequenos comerciantes.

No entanto, é o único caminho. Mais um governo com o freio de mão puxado é a entrega definitiva do país para um candidato de direita em 2030. E sei que há quem acredite em um candidato moderado da direita daqui a quatro anos. Mas isso pode até acontecer no discurso. Na prática, a direita significa, sim, cortes de investimentos públicos, serviços públicos e políticas de proteção ao trabalhador e combate à desigualdade.

Só que, daqui a quatro anos, com outro nome no lugar de Lula, o discurso de apenas evitar um mal maior não terá o mesmo alcance. Principalmente se, dessa vez, a direita não escolher um candidato de uma família envolvida em tantos crimes, que nunca tenha trabalhado na vida.

Portanto, para Lula, só resta fazer o melhor mandato da vida. Entender que se preocupar com o governo de coalizão fazia sentido em 2002, quando, pela primeira vez, um governo de esquerda chegava ao poder e conseguia completar um mandato sem sofrer uma tentativa de golpe. Hoje, o tempo é outro. A chama do interesse político surgiu em grande parte da população e não pode ser apagada.

Até porque muito se discute sobre quem vai ser o sucessor de Lula. Comenta-se que não há outro nome forte. No entanto, com um bom governo, sequer é necessário ter esse nome.

Dilma foi eleita em 2010 e, até janeiro daquele ano, era desconhecida de dois terços da população brasileira.

O futuro do PT, PSOL, PSB e dos demais partidos de esquerda

Mas a esquerda não se resume ao PT. Muito pelo contrário. Pessoas mais engajadas na esquerda, inclusive, fazem muitas críticas ao PT por ter se curvado muito ao centro.

Com isso, hoje existem outros grandes partidos neste campo. Um deles é o PSB, do vice Geraldo Alckmin e de João Campos. No entanto, recebe a mesma crítica de ter se curvado muito ao centro. Além disso, tem se enfraquecido nos últimos anos. Nesta eleição, conseguiu apenas 15 deputados federais e terá quatro senadores no Congresso.

Já o PSOL tem uma curva diferente. O partido cresceu para 14 deputados federais. No entanto, tem tido dificuldades para se expandir de forma mais rápida e em mais regiões.

Nesta eleição, contou com o reforço de Jones Manoel. Comunista, tem grande alcance na internet e foi eleito por Pernambuco. Em compensação, nomes como Erika Hilton e Guilherme Boulos podem deixar o partido. O que vai sobrar dessa dança das cadeiras pode determinar o futuro do PSOL.

A lista ainda inclui o PCdoB e o PV, que estão em uma federação com o PT, e a Rede, que está na federação com o PSOL.

Além do PDT, que não alcançou a cláusula de barreira e ficará sem acesso ao Fundo Partidário e ao tempo de TV. Dessa forma, terá que formar uma federação com algum partido ou poderá acabar desaparecendo.

Ainda existem partidos menores, como Unidade Popular, PCB e PSTU, que conseguem algum engajamento, mas nada de grande representatividade.

Os jovens que participaram das manifestações podem renovar a política brasileira?

Para este recorte de tempo, nenhum partido consegue superar nem dividir o protagonismo na esquerda com o PT. O que pode mudar é qual deles conseguirá atrair para si toda a participação juvenil nas manifestações e mobilizações de 2026.

Tem toda uma juventude em disputa. Há uma parcela que foi atraída pela extrema-direita e que pode ser conquistada. Isso pode fazer surgir um PT ainda maior ou colocar PSOL e PSB em condições de disputar bem as eleições municipais daqui a dois anos.

Para isso, é preciso melhorar a comunicação e saber utilizar as redes, como Janones conseguiu com o Exército do Lula.

É necessário saber dialogar com as novas relações de trabalho. O trabalhador industrial sindicalizado, que teve grande relevância na formação do PT, continua existindo. Entretanto, divide espaço com entregadores por aplicativos, motoristas, profissionais terceirizados, trabalhadores informais, microempreendedores e pessoas que alternam diferentes ocupações para complementar a renda.

Essas transformações afetam a organização coletiva. Um trabalhador com vínculo formal pode compartilhar diariamente o ambiente profissional com centenas de colegas. Já um entregador pode realizar suas atividades de maneira individualizada, mediado por uma plataforma digital.

Também existe uma mudança na maneira como as pessoas interpretam sua própria posição econômica. Parte dos trabalhadores se identifica como autônoma ou empreendedora, mesmo quando depende economicamente de poucos contratantes ou plataformas.

Para esse público, não adianta defender que a CLT é importante. É preciso comunicar que ele pode manter essa relação de trabalho, que considera mais favorável, mas ainda assim ter mais direitos e proteção. Que ele precisa ter segurança em caso de acidente, morte, aposentadoria, se a moto quebrar ou se o carro ficar parado. E que só a esquerda se propõe a isso.

Religião, periferias e identidade popular: uma relação que exige compreensão

Outro desafio envolve a relação entre organizações de esquerda e comunidades religiosas. A história do PT demonstra que religião e militância progressista não são campos necessariamente opostos. As comunidades eclesiais de base, por exemplo, participaram da organização popular durante a redemocratização.

Nas últimas décadas, porém, o crescimento de diferentes organizações evangélicas e a atuação política de lideranças religiosas modificaram esse cenário.

No entanto, é um erro tratar os eleitores religiosos como um grupo homogêneo. Pessoas que compartilham uma religião podem apresentar posições distintas sobre economia, segurança pública, direitos sociais e costumes.

Por mais resistência que possa encontrar neste campo, a esquerda precisa buscar formas de melhorar a comunicação e mostrar que não há incoerência em ser cristão e ser de esquerda. Muito pelo contrário.

Comunicadores, redes sociais e o Exército do Lula

Por fim, é preciso compreender que política não se faz de quatro em quatro anos nem de dois em dois anos. Quem está no poder atua para a manutenção dos seus privilégios todos os dias. Seja com investimento em campanhas, influência dentro das empresas ou propagação de mentiras nas redes. Tudo espalhado pelo WhatsApp de milhões de pessoas.

A esquerda precisa se organizar para se manter atuante e compartilhando informações todos os dias também. Seja no Exército do Lula, seja com produtores de conteúdo e a atuação dos próprios políticos nas redes.

Tem toda uma nova geração chegando à política. Ana Elisa, Guilherme Cortez, Erika Hilton, Jones Manoel… A galera mais antiga continua sendo importante, mas é preciso estar atualizada sobre o novo campo de disputa.

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