Comparamos Datafolha, Ibope, Ipec, Quaest e AtlasIntel com os resultados das eleições de 2018 e 2022. Veja as diferenças para PT e Bolsonaro.
As pesquisas eleitorais voltaram ao centro do debate com a aproximação da eleição presidencial de 2026. A nova rodada do Datafolha mostra Lula (PT) com 39% das intenções de voto e Flávio Bolsonaro (PL) com 36%, dentro da margem de erro de dois pontos percentuais.
Mas as experiências das duas últimas eleições presidenciais levantam uma questão importante para interpretar esses números: qual foi a distância entre as pesquisas divulgadas na reta final e aquilo que efetivamente apareceu nas urnas?
Uma comparação de Datafolha, Ibope/Ipec, Quaest e AtlasIntel mostra que não existe um erro fixo que possa simplesmente ser acrescentado ou retirado dos números atuais. Ainda assim, 2018 e 2022 apresentam um padrão relevante: no primeiro turno, as pesquisas finais ficaram relativamente próximas do desempenho dos candidatos do PT, enquanto subestimaram Jair Bolsonaro por uma margem maior.
Em 2018, Bolsonaro terminou bem acima das últimas pesquisas
A eleição de 2018 oferece o primeiro exemplo. Na véspera do primeiro turno, o Datafolha apontava Jair Bolsonaro com 40% dos votos válidos e Fernando Haddad com 25%. O Ibope apresentava números semelhantes: 41% para Bolsonaro e 25% para Haddad. As duas pesquisas tinham margem de erro de dois pontos percentuais.
Quando as urnas foram abertas, Bolsonaro terminou com 46,03% dos votos válidos. Haddad alcançou 29,28%. Portanto, ambos tiveram desempenho superior ao registrado pelas pesquisas, mas a diferença foi maior no caso de Bolsonaro.
No Datafolha, Bolsonaro recebeu 6,03 pontos percentuais a mais nas urnas do que indicava a pesquisa final. A diferença de Haddad foi de 4,28 pontos. No Ibope, a distância foi de 5,03 pontos para Bolsonaro e novamente de 4,28 pontos para Haddad.
| 2018 – 1º turno | Pesquisa | Urnas | Diferença |
|---|---|---|---|
| Datafolha – Bolsonaro | 40% | 46,03% | +6,03 p.p. |
| Datafolha – Haddad | 25% | 29,28% | +4,28 p.p. |
| Ibope – Bolsonaro | 41% | 46,03% | +5,03 p.p. |
| Ibope – Haddad | 25% | 29,28% | +4,28 p.p. |
Ou seja, as pesquisas identificaram corretamente quem ocupava as duas primeiras posições, mas não captaram integralmente o tamanho do crescimento dos dois candidatos na reta final. O movimento foi especialmente forte entre os eleitores de Bolsonaro.
Em 2022, o desempenho de Lula ficou perto das pesquisas; o de Bolsonaro, não
Quatro anos depois, o fenômeno apareceu de forma ainda mais clara. Na véspera do primeiro turno de 2022, o Datafolha mostrava Lula com 50% dos votos válidos e Bolsonaro com apenas 36%. O Ipec registrava 51% para Lula e 37% para Bolsonaro.
A Quaest estava um pouco mais próxima: 49% para Lula e 38% para Bolsonaro.
Nas urnas, entretanto, Lula terminou com 48,43% dos votos válidos e Bolsonaro alcançou 43,20%.
A diferença de Lula em relação às pesquisas foi pequena. Ele ficou 1,57 ponto abaixo do Datafolha, 2,57 pontos abaixo do Ipec e apenas 0,57 ponto abaixo da Quaest.
Com Bolsonaro, a diferença foi muito maior. O então presidente recebeu 7,20 pontos percentuais a mais do que indicava o Datafolha, 6,20 pontos acima do Ipec e 5,20 pontos acima da Quaest.
| 2022 – 1º turno | Pesquisa | Urnas | Diferença |
|---|---|---|---|
| Datafolha – Lula | 50% | 48,43% | -1,57 p.p. |
| Datafolha – Bolsonaro | 36% | 43,20% | +7,20 p.p. |
| Ipec – Lula | 51% | 48,43% | -2,57 p.p. |
| Ipec – Bolsonaro | 37% | 43,20% | +6,20 p.p. |
| Quaest – Lula | 49% | 48,43% | -0,57 p.p. |
| Quaest – Bolsonaro | 38% | 43,20% | +5,20 p.p. |
O próprio Datafolha analisou posteriormente a diferença. Segundo o instituto, houve movimento de voto útil em favor de Bolsonaro na reta final. A diretora do Datafolha, Luciana Chong, também ressaltou que pesquisas medem a intenção de voto no momento das entrevistas e não constituem uma previsão do resultado eleitoral.
O PT ou Bolsonaro costuma ficar mais perto das pesquisas?
Se observarmos apenas as últimas pesquisas de primeiro turno analisadas aqui, existe uma diferença clara.

Em 2018, o Datafolha subestimou Haddad em 4,28 pontos e Bolsonaro em 6,03. O Ibope apresentou diferença de 4,28 pontos para Haddad e 5,03 para Bolsonaro.
Em 2022, aconteceu algo diferente com o candidato petista. Lula terminou ligeiramente abaixo das pesquisas: 1,57 ponto em relação ao Datafolha, 2,57 no Ipec e somente 0,57 na Quaest. Bolsonaro, por sua vez, ficou entre 5,20 e 7,20 pontos acima desses levantamentos.
Considerando essas cinco comparações de primeiro turno, a diferença absoluta média entre pesquisa e urna foi de aproximadamente 2,7 pontos percentuais para os candidatos do PT e 5,9 pontos para Bolsonaro.
Isso não significa que exista uma espécie de “voto oculto” de seis pontos que deva ser automaticamente acrescentado a candidatos ligados a Bolsonaro em 2026. São apenas duas eleições, realizadas em contextos diferentes, com candidatos, campanhas e metodologias que não são idênticos.
Os dados permitem uma conclusão mais limitada: nas pesquisas finais de primeiro turno selecionadas de 2018 e 2022, a votação de Jair Bolsonaro foi sistematicamente maior do que os levantamentos indicavam, enquanto a diferença dos candidatos petistas foi menor.
No segundo turno, a história foi diferente
A comparação muda bastante quando se observam os segundos turnos. Em 2018, o Datafolha praticamente reproduziu o resultado das urnas.

Na véspera da votação, o instituto apontava Bolsonaro com 55% dos votos válidos e Haddad com 45%. O resultado oficial foi 55,13% contra 44,87%. A diferença foi de apenas 0,13 ponto percentual para cada candidato.
O Ibope também chegou perto. Sua última pesquisa mostrava Bolsonaro com 54% e Haddad com 46%. A diferença para o resultado oficial foi de 1,13 ponto percentual para cada lado.
Em 2022, Datafolha e Quaest apontaram Lula com 52% dos votos válidos e Bolsonaro com 48% na reta final. As urnas terminaram em 50,90% para Lula e 49,10% para Bolsonaro. A diferença foi, portanto, de 1,10 ponto percentual para cada candidato.
Outros institutos registraram distâncias maiores. O último Ipec indicava 54% para Lula e 46% para Bolsonaro, ficando 3,10 pontos distante do resultado de cada candidato. A AtlasIntel apontava 53,4% para Lula e 46,6% para Bolsonaro, uma diferença de 2,5 pontos.
| Eleição | Instituto | PT na pesquisa | PT nas urnas | Bolsonaro na pesquisa | Bolsonaro nas urnas |
|---|---|---|---|---|---|
| 2018 | Datafolha | 45% | 44,87% | 55% | 55,13% |
| 2018 | Ibope | 46% | 44,87% | 54% | 55,13% |
| 2022 | Datafolha | 52% | 50,90% | 48% | 49,10% |
| 2022 | Quaest | 52% | 50,90% | 48% | 49,10% |
| 2022 | Ipec | 54% | 50,90% | 46% | 49,10% |
| 2022 | AtlasIntel | 53,4% | 50,90% | 46,6% | 49,10% |
Por que o segundo turno tende a ser mais fácil de medir?
Existem algumas diferenças importantes. No segundo turno, o eleitor escolhe entre apenas dois candidatos, enquanto no primeiro existem várias alternativas. Além disso, a parcela de eleitores ainda considerando mudanças pode diminuir à medida que a votação se aproxima.
O Datafolha apontou essa característica depois da eleição de 2022. Na pesquisa realizada na véspera do segundo turno, 94% dos entrevistados afirmavam estar totalmente decididos sobre o voto.
Luciana Chong, diretora do instituto, afirmou após a votação que havia menos eleitores indefinidos ou cogitando mudar a escolha no segundo turno. Segundo ela, isso ajudou as pesquisas finais a ficarem mais próximas das urnas.
Ainda assim, isso não garante que toda pesquisa de segundo turno fique dentro da margem de erro. Em 2022, por exemplo, o Ipec apontou uma diferença de oito pontos entre Lula e Bolsonaro, enquanto a vantagem efetiva do petista foi de apenas 1,8 ponto.
O que 2018 e 2022 dizem sobre as pesquisas de 2026?
A principal cautela é não transformar diferenças passadas em uma fórmula para corrigir pesquisas atuais. Não seria estatisticamente adequado, por exemplo, pegar uma pesquisa de 2026 e simplesmente acrescentar cinco ou seis pontos ao candidato associado ao bolsonarismo.
As eleições de 2018 e 2022 mostram contextos específicos. Mudanças de voto nos últimos dias, comparecimento às urnas, abstenção e a composição do eleitorado efetivamente presente no domingo podem produzir diferenças entre uma pesquisa realizada antes da eleição e o resultado final.
Por outro lado, o histórico ajuda a entender por que uma diferença pequena nas pesquisas deve ser interpretada com cautela. Em 2018 e, principalmente, em 2022, as últimas pesquisas de primeiro turno analisadas aqui ficaram mais próximas do resultado do candidato petista do que da votação efetivamente alcançada por Jair Bolsonaro.
No segundo turno, porém, essa diferença diminuiu significativamente. Datafolha ficou praticamente sobre o resultado em 2018 e a 1,1 ponto de cada candidato em 2022. Quaest apresentou a mesma diferença em 2022.
Portanto, o histórico recente não permite “corrigir” a atual pesquisa Datafolha de Lula contra Flávio Bolsonaro. Ele permite apenas contextualizá-la: pesquisas são retratos do período em que o trabalho de campo é realizado, e a experiência das duas últimas eleições mostra que mudanças entre as entrevistas e a votação podem ser relevantes, sobretudo no primeiro turno.
